A noção de racismo na Bíblia

A noção de racismo na Bíblia

Samuel Hansley

 

Quando da intenção de falar do que a Bíblia ensina a respeito das questões da atualidade é sempre bom lembrar que há temas que não estão expressamente mencionados nas Escrituras. Porém, existem tópicos que são tão delicados em nossa sociedade, que mereciam uma luz inequívoca, mas que infelizmente somente são tratados dentro de um turbilhão de interpretações, gerando dúvidas, mas não poderia ser diferente.

 

Ao falarmos de racismo, buscando balizamento nas Escrituras entramos em uma dessas situações mencionadas acima, pois desafortunadamente, a Bíblia não trata de assuntos relativos à racialização do ser humano, pelo menos explicitamente. Existem algumas dificuldades para tratar deste tema nas Escrituras. Uma destas dificuldades está no campo da filologia (estudo dos escritos antigos e de sua transmissão, para interpretá-los e editá-los).

 

Podemos começar a lidar com este problema fazendo as seguintes perguntas: 1) Existe uma palavra na Bíblia ou nas suas línguas originais que sirva para falar de “raça”? 2) Quais seriam as palavras que os autores bíblicos utilizaram para falar de temas assemelhados? 3) Ou se não, então de que maneira o tema da racialização entrou no ocidente?

 

O quadro abaixo tem o propósito de facilitar esta verificação dos elementos filológicos envolvidos nesta pesquisa:

Quadro realizado com suporte disponível em: https://www.bibliaon.com/pesquisa.php?q=Ra%E7a. Acessado em 09/04/2021

 

 

Fazendo uma busca de forma simples das ocorrências das expressões no Antigo Testamento e no Novo Testamento que se referem “raça” em primeiro lugar é notado o significado das palavras encontradas nas Escrituras: “tarbût, zera’, gennémata e sarka” não deveria ser traduzidas por “raça”. O termo “raça” somente aparece em algumas traduções modernas para o português.

 

Em Número 32,14, quando o Senhor diz aos filhos de Gade e de Rúben que se tratavam de “raça de homens pecadores”, que aumentaram a ira de Deus, não havia a intenção de referir-se a eles como um agrupamento, um tipo humano diferente de outros. Mas a versão: Almeida Revista e Atualizada (ARA), utiliza esta expressão “raça”. As versões: Almeida Revista e Corrigida (ARC) e Almeida Corrigida Fiel (ACF) adotam traduções cada a ponto de vista: “multidão”, ou “geração”. Todavia, a Nova Versão Internacional (NVI) também utiliza o termo “raça” para traduzir tarbût [ninhada].

 

Já em Isaías 1,4 o profeta Isaías toma a palavra em nome de Deus para se referir aos ierusumilanos como “raça malígina” (ARA). Naquela passagem a melhor tradução da palavra: “zera’” seria [semeadura]. No entanto a versão (ARF) preferiu traduzir como [semente] e a (ARC) traduziu o termo “zera’” como [geração]. Porém, a (NVI) utiliza o termo [raça] para traduzir “zera’” [semeadura]. Desta maneira, os “zera’” são os moradores de Jerusalém, não se referindo, portanto a um grupo de estrangeiros de outra raça ou etnia.

 

Em Mateus 3,7 o evangelista usa a palavra “gennémata” [prole] para se referir àqueles que João Batista considerava como sendo “raça de víboras” (ARA).  Mateus usa o termo “prole”, mas tanto a ARA, quanto ARC e a NVI usam o termo [raça] para traduzir o tratamento que o precursor de Jesus deu aos fariseus e aos saduceus que vinham testemunhar o batismo que estava realizando. Mais uma vez não é notado aqui uma atitude, ou mesmo uma ação contra pessoas de povos diferentes.

 

Por último, mas não menos importante, encontra-se o texto de Romanos 9,3 onde o apóstolo Paulo usa a palava “sárka” [carne ou corpo] para se referir aos judeus como “meus compatriotas, segundo a carne” (ARA). Contudo a Versão ARC e a NVI fazem uso do termo “raça”. Aqui aparece o primeiro caso em que o apóstolo poderia está mencionando “sárka” como “raça”. Entretanto a expressão “segundo a carne” não é o suficiente para ser biologizada. A fórmula “segundo a carne” trata-se de uma linhagem ou laços consanguíneos que pode ser utilizada para tratar de família extensa, parentesco, ou até mesmo nacionalidade. Mas para o entendimento de “raça” é necessário algo mais.

 

Se a Bíblia parece não apresentar um vocábulo inequívoco sobre o que seria raça, então como as Escrituras poderiam nos ajudar nesta questão? E mais importante ainda, de onde vem à ideia de racismo no Ocidente?

 

Primeiro é necessário sugerir uma compreensão de racismo para que se possa ter uma base de discussão. Pode se aludir à visão de Philippe Laburthe-Toira e Jean-Pierre Warnier que dizem se tratar de uma compreensão de:

1) que existem raças distintas; 2) que determinadas são inferiores (moralmente, intelectualmente, tecnicamente) às outras; 3) que esta inferioridade não é social ou cultural (quer dizer, adquirida), mais inata e biologicamente determinada” (LABURTHE-TOIRA; WARNIER, 2010, p. 31).

 

Assim o racismo é um fenômeno complexo que tem que atender segundo esta compreensão a estes requisitos: que várias seriam as raças (dentro de matrizes grupais, que os pesquisadores precisam ainda chegar a um acordo em meio à espécie humana). Mas além disto, o racista precisa hierarquizar tais raças dentre padrões, “moral, intelectual e técnico”. E por último as diferenças teriam que ser consideradas inerentes aos tipos humanos observados. Então salve uma melhor compreensão, realmente não encontraremos nas Escrituras uma visão tão complexa quanto da racialização da espécie humana ocidental tal como encontramos nos dias atuais.

 

A questão que ainda repercute: de onde vem a presente noção de racialização instalada no Ocidente e como interfere na leitura da Bíblia?

 

Apesar de não se saber ao certo de onde vem o vocábulo “raça”, imagina-se que tenha sido um neologismo criado a partir do italiano e do francês para se referir a grupos humanos, inicialmente localizados (BARBUJANI, 2007, p.64). Assim um termo neolatino: “ratio” [razão e raça] foi apropriado pelos antropólogos para falar das variedades e tipologias humanas.

 

Michael Banton sugere esta ideia de relacionar raça à razão seja uma reificação de um citado de Lineu: “homem em vez de viver de acordo com seus costumes, bem poderia viver de acordo com a razão” (LINEU apud, BANTON, 2015, p.27), implicando em uma relação homológica entre a condição “bárbara” e o uso das faculdades racionais dos outros povos. Assim se admitiria que a variedade de grupos humanos implicava em uma ineficiência com o trato linguístico. Desta maneira, determinados grupos humanos seriam menos dotados de capacidades no âmbito da razão.

 

Banton quando estudou o percurso da desigualdade racial no ocidente não encontrou na literatura medieval uma noção de “consciência e antagonismo racial”.  Segundo o rastreamento que foi feito por diversos autores, a “ideia de raça” não foi encontrada àquela altura (BANTON, 2015, p.25). Para ele, razões múltiplas poderiam ter produzido esta noção, tais como:

  1. a) a delimitação de raça no Novo Mundo sobre a influência de portugueses e espanhóis; b) a adoção da escravidão por culturas árabes; c) a exploração comercial inglesa; d) o falimento da monogenia como paradigma para as relações raciais e sua possível substituição pela poligenia; e) o fato de que os ingleses pensarem a si próprios, como uma raça, independente de seu contato com outros povos (BANTON, 2015, pasin, p.26-28).

 

Segundo Michael Banton até certo ponto, a noção de raça entre os ingleses surgiu para o enfrentamento de questões como as linhagens de ascendentes (normandos e saxões). Desde Tácito, havia a tentativa de definir os ingleses como “descendentes da raça germânica, geralmente chamada de saxões” (TÁCITO, apud BANTON, 2015, p.29).

 

Para Tácito, os germânicos se inseriram na Bretanha pelos idos de 449 dC. O mito da origem anglo-saxônica se fortaleceu no contexto da invasão normanda, 1066 dC. É nesta época que surgiu uma crença de que a “classe dominante” na Bretanha era descendente de estrangeiros do norte (normandos). O que foi se configurando até mesmo através da famosa obra de ficção de Sir Walter Scott “Ivanhoe”, em 1820 dC (BANTON, 2015, pasin, p.30-33).

 

Os ingleses foram desenvolvendo a ideia de raça para se referem à diferentes linhagens dentre o seu próprio povo, antes mesmo de viverem experiência de contato interétnico. Como Charles Kingsley permite pensar que o termo raça é gestado dentro da conjuntura de “antipatia racial” (KINGSLEY apud BANTON, 2015, pasin, p.30-33).

 

Certamente, o autor que mais contribuiu para promover o avanço da desigualdade racial no século XIX, tenha sido o conde Joseph Arthur de Gobineau em sua obra: “Essai sur l’inégalité des races humaines” [Ensaio sobre a desigualdade das raças humana] em 1855. Gobineau participou ativamente do movimento de racialização do Ocidente hierarquizando as raças a partir de critérios biológicos e psicologizantes. Gobineau que fora um leitor do romantismo alemão e principalmente formulou a sua teoria a partir da obra de Sir Walter Scott “Ivanhoe”.

 

Desta forma, desde o final da idade medieval até o século XIX uma racialização do Ocidente esteve em curso, de modo a contribuir para uma hierarquização dos grupos humanos e formulação de uma tipologia racial. Mas, como agora tais ideias podem aparecer na leitura do texto bíblico?

 

A certa altura foi dito que as questões relativas a temas da realidade contemporânea podem ser tratados dentro de turbilhonar de interpretações bíblicas, gerando uma insegurança em nossas noções. O que sabemos até agora é que foram os tradutores modernos que levaram para dentro de seus trabalhos o termo “raça” que é uma construção moderna, e europeia.

 

Quando alguns tradutores modernos se incumbiram de traduzir vocábulos tais como: “tarbût, zera’, gennémata e sarka” se utilizaram da expressão “raça” que de agora em diante sabemos, tratar-se de anacronismo, ou seja, uma ideia fora de seu lugar histórico. Desta forma os tradutores sob à influência das noções de seu tempo perderam o melhor sentido das palavras a serem utilizadas.

 

Ao refletir sobre o tema do racismo nas Escrituras precisamos sempre ter bastante cautela para não nos induzir por traduções que necessitam ser checadas com outras versões, que precisam ser verificadas de forma mais acurada. É sempre bom notar que existem outras passagens que mostram o amor de Deus para com todos os povos na Bíblia quando diz: “Porque para Deus não há acepção de pessoas”. (Rom. 2,11, ARA); ou ao afirmar: “se, todavia, fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado” (Tg. 2,9, ARA); e até mesmo: “não pode haver judeu nem grego (…) porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gal. 3,28, ARA).

 

Que tal pensar nisto quando vir alguém usando a Bíblia para fazer afirmações contundentes sobre racismo. Procure se informar ainda mais sobre estes temas delicados, buscando base nas Santas Escrituras antes mesmo de aceitar rapidamente afirmações muito polêmicas que fogem do modo de ser das Escrituras, prodigas em falar do amor de Deus a todos os homens e mulheres.

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