AS IGREJAS LIVRES E OS PRINCÍPIOS ECLESIOLÓGICOS BATISTAS

AS IGREJAS LIVRES E OS PRINCÍPIOS ECLESIOLÓGICOS BATISTAS

Por Carlos Novaes

(Pastor da IB Barão da Taquara e Professor da FABAT)

Foi no século XVII, em solo inglês, que surgiu o movimento das igrejas separatistas. E dos separatistas ingleses vieram as denominações históricas que hoje bem conhecemos: congregacionais, presbiterianos, batistas e, num segundo momento, metodistas.

Mas vamos começar do início.

Após a Reforma do século XVI, com Lutero na Alemanha, Zuínglio em Zurique e Calvino em Genebra, os dois últimos na Suíça, nasceram os três princípios que nortearam as ideias dos reformados: a autoridade das Escrituras, a justificação pela fé na graça e o sacerdócio universal dos crentes.

A autoridade das Escrituras se contrapunha ao dogmatismo da Igreja Católica. A justificação pela fé na graça antagonizava com o sistema sacramental eclesiástico. E o princípio do sacerdócio universal se erguia contra o clericalismo.

Foram essas as bases em que o edifício do protestantismo se ergueu.

Quando, em 1534, o rei da Inglaterra (Henrique VIII) rompe com o catolicismo, nacionalizando a igreja inglesa e organizando a Igreja Anglicana, os motivos não eram de caráter teológico ou hermenêutico. Procediam do seu interesse particular e, de certa forma, da sua libido real. Henrique VIII não teve autorização do papa para se divorciar de Catarina de Aragão e se unir em sagrado matrimônio a Ana Bolena. Com a ruptura institucional, tornou-se o chefe da Igreja Anglicana e concedeu a si mesmo o desejado divórcio.

A Igreja Anglicana, porém, permanecia a mesmíssima Igreja Católica na forma e no conteúdo. Só mudara porque agora se via uma faixa estendida na fachada: “Sob nova direção”.

As verdadeiras mudanças passaram a ocorrer com o movimento puritano, de caráter calvinista. A partir de então, houve uma influência mais enfática dos princípios da Reforma na teologia anglicana e na instituição em geral.

Permanecia, porém, como no caso do luteranismo e das reforma de Zuínglio e Calvino, uma igreja estatal.

Os reformadores que desviavam desse formato são chamados hoje de radicais. Pretendiam transitar da condição de filiados à establishment church para a condição de componentes das free churches.

Muitos deles receberam a clara influência dos antipedobatistas, isto é, grupos que se negavam a batizar crianças, como os anabatistas. Para tais grupos, o indivíduo tinha o direito e a liberdade de optar a que comunidade de fé desejava pertencer, pois o batismo — mais do que um simples rito — se constituía numa profissão consciente de fé.

O tema ganhou vulto na Inglaterra com as ideias de John Locke a respeito da autonomia do indivíduo e, ao mesmo tempo, com as correntes congregacionalistas que já conquistavam terreno entre os puritanos ingleses.

Dois tipos de congregacionalismo se manifestavam naqueles dias. Um congregacionalismo médio, que harmonizava a autonomia da congregação com a coordenação de um presbitério (dando origem ao presbiterianismo), e um congregacionalismo mais enfático, que dava à congregação total autonomia para conduzir os assuntos relacionados à igreja local. Desse segundo tipo se desenvolve a eclesiologia dos batistas.

Tudo somado — a defesa do batismo voluntário, a filosofia da autonomia do indivíduo e a eclesiologia congregacionalista — temos o cenário montado para o surgimento de dois princípios clássicos dos batistas modernos: a congregação formada por crentes voluntariamente batizados e a autonomia das igrejas locais, gerenciadas por seus próprios membros.

Dessa forma, podemos afirmar que os batistas modernos possuem em sua árvore genealógica o movimento das igrejas separatistas inglesas. São, na prática, herdeiros do congregacionalismo característico desse ramo da ampla e multifacetada árvore da Reforma.

À tradicional pergunta, portanto, se são os batistas protestantes ou não, a resposta — como já deixou claro Justo C. Anderson, no clássico Historia de los bautistas — é, simultaneamente, não e sim.

Não são protestantes no sentido em que o são os luteranos, zuinglianos e calvinistas do século XVI. Os batistas nem existiam nessa época.

E são sim, se os consideramos como herdeiros dos princípios reformados originais e, por extensão, dos legados da reforma anglicana e dos movimentos separatistas dela oriundos.

 

SUGESTÃO PARA LEITURA

LINDBERG, Carter. As reformas na Europa. Sinodal.

HILL, Cristopher. A Bíblia inglesa e as revoluções do século XVII. Civilização Brasileira.

NIEBUHR, H. Richard. As origens sociais das denominações cristãs. Aste.

ANDERSON, Justo C. Historia de los bautistas. Casa Bautista de Publicaciones (3 volumes).

OLIVEIRA, Zaqueu M. Liberdade e exclusivismo: ensaios sobre os batistas ingleses. Horizonal.

 

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