SÍNDROME DE JEFTÉ

SÍNDROME DE JEFTÉ

Por Pr. Levi Araújo

“Que eu to fugindo só pra ouvir você pedindo pra eu ficar, pois com você é o meu lugar”. [Estevão Queiroga poetizando em sua obra “Tá“ do magnifico Ocideia]

Quantos sacrifícios os pais humanos e são capazes de enfrentar pelos seus filhos e filhas?

A Bíblia é um livro cheio de histórias bizarras. Por essa e outras razões, cada texto e relato deve ser interpretado com as devidas ferramentas exegéticas e hermenêuticas, como qualquer outro texto da antiguidade.     Uma das histórias mais dramáticas e chocantes é a do voto absurdo, pecaminoso e criminoso de Jefté, um dos Juízes de Israel. Você encontra essa história no capítulo 11 do Livro dos Juízes.

Um proscrito, filho de prostituta, expulso de sua família e sua tribo, se transforma em líder de uma gangue de marginais e termina ascendendo a Comandante do Exército daqueles que o baniram e exilaram.   Antes da maior de suas batalhas ele faz um voto imprudente a DEUS. O final é trágico. Terminou com o sacrifício da sua única filha.      Vale lembrar que o sacrifício humano sempre foi condenado e proibido por DEUS.

Guardadas as devidas relações, essa história me faz pensar em quantos dos nossos filhos e filhas são sacrificados pelas nossas batalhas e nossos votos em nome de DEUS e do Seu povo.    Quantos filhos e filhas de pastores e missionários foram machucados e estigmatizados pela fidelidade piedosa dos seus pais a DEUS, ao Seu povo e aos seus ministérios?

Obviamente que essas “oferendas” de filhos não é exclusividade dos lideres religiosos. Muitos filhos e filhas são oferecidos diariamente aos deuses da profissão, dos negócios, da ideologia, do liberalismo, da tradição, do moralismo, do conservadorismo, do fundamentalismo, da religião, da imagem, da reputação.  O Panteão é grande. Se desejar, continue esta lista, escolhendo um altar de um outro deus seu conhecido.

Mas Jefté me desafia a pensar em quantos filhos são sacrificados por causa de nossos ritos, dogmas, doutrinas e pautas morais.   Sacrificados em nome de Deus, em nome do povo de DEUS, da sã doutrina de DEUS, da Igreja de DEUS.  Pergunto sinceramente e com o coração doído: Quantos dos nossos filhos homoafetivos são diariamente sacrificados em nossas famílias e comunidades de fé?

Queimamos os nossos mais preciosos vínculos de amor no altar da religiosidade, culposa ou dolosamente.  Sacrificamos as nossas crias com exclusões, apagamentos e sofrimentos.  Sacrificamos nossos amorzinhos com nosso silêncio envergonhado e nossa omissão diante das violências, mortes, linchamentos, e cultura do cancelamento que vai criminosamente além das redes sociais.  Possuídos pelas “boas intenções” de Jefté, estamos oferecendo votos que DEUS não pede, votos que Ele abomina, votos que Ele chama de pecado e o faz chorar.

Somos mais de Jefté, de Paulo, de Pedro, de Apolo, de Elias, de Davi ou de Moisés, mais dos heróis da Bíblia do que Jesus de Nazaré e dos nossos filhos e filhas?  É isso mesmo?   Nesse texto de Paulo aos Coríntios [capítulo 3] os piores eram os que se diziam de Cristo – somos de Cristo, diziam arrogantemente – menosprezando os outros e semeando exclusivismos, divisões e contendas comunitárias. Romper, cindir e esgarçar os vínculos de amor era o dom desgraçado – sem karis – daquele grupo que sabia transformar as Comunas do Amor em apequenados tribunais. Bem atual, não acha?

Nós somos o Cristo, pequenos Cristos, discípulos do Cristo Ressurreto que habita em nós, a reconciliação é a nossa potente vocação, o Amar como Ele nos amou, nossa única Lei e o Fazer aos outros o que esperamos que nos seja feito, nossa única Regra.

Muitas coisas na Bíblia e nas palavras de Jesus de Nazaré eu não entendo completamente.  Nesses mais de 35 anos de ministério pastoral – 29 deles como pastor batista da OPBB – e 50 de muitas leituras anuais da Bíblia, fui percebendo que as certezas absolutas se evaporaram abençoada e maravilhosamente. Aleluia! Gloria a Jesus! DEUS seja louvado por essa libertação.

Jesus de Nazaré que é a Palavra, o Verbo divino, continuará me levando no Caminho para que eu encontre a Verdade em tudo, inclusive na Bíblia.  Ele é o meu Mestre de Bíblia. Não, não quero outro professor. Confio demais n’Ele.  Quero ouvir todos os argumentos para os únicos textos que me interessam sobre esse tema, a saber, Romanos 1, 24 a 32 e 1 Coríntios 6, 9 a 11.

Aqui cabe um aviso bem “papo reto”: argumentadores “lacradores” ortodoxos e/ou heterodoxos, igualmente me irritam e não me interessam, pois tenho mais a quem amar do que ficar perdendo tempo com pedantismos acadêmicos e ativismos arrogantes.  Não tenho pressa e sei que é um processo. Estou entre aqueles honestamente interessados em aprender sem errar ou induzir alguém ao erro, zelo legítimo e compreensível, desde que não nos transformemos em Jeftés do Século XXI.

Jesus pode até me levar antes que eu entenda tudo sobre essa temática, mas enquanto estiver do lado de cá da eternidade, quero priorizar em obedecer com radicalidade singela tudo que aprendo com Ele.    O Bom Pastor é quem define a minha pastoralidade e profetismo. Para mim bastam as seguintes verdades que as Instituições e Organizações religiosas não têm autoridade e legitimidade alguma para legislar ou controlar, a saber: A Mesa da Eucaristia é do Senhor Jesus de Nazaré, as Águas do Batismo Cristão são do Espirito Santo e o Discipulado Cristão é para toda Pessoa/Habitação da Santíssima Trindade no Poder do Espirito Santo.

Sem a pretensão de esgotar o assunto, concluo com uma pequena mudança na pergunta do início: Por nossas crias, quantos sacrifícios os pais e pastores humanos são capazes de enfrentar?

 

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