O bom samaritano e o “racismo estrutural”

O bom samaritano e o “racismo estrutural”

Por Samuel Hansley

O Papa Bento XVI em seu livro Jesus de Nazaré I diz que “a atualidade da Parábola do bom samaritano é obvia” (RATZINGER-BENTO XVI, 2000, p. 171), isto porque é muito fácil encontrarmos “pessoas saqueadas e destroçadas” ainda hoje, ainda temos “vítimas das drogas, comércio humanos, homens interiormente destruídos…”. Desta forma, precisamos tirar partido da declaração da contemporaneidade das palavras de Jesus e pensarmos que elas poderiam nos ensinar a mais para sociedade atual. O que as igrejas de Jesus Cristo podem fazer com base neste ensinamento nos dias de Hoje?

Ivanaldo Mendonça diz que “o emblemático texto (…) atravessa os tempos ensinando à prática da caridade” (MENDONÇA, 2019). Mas talvez esta visão possa ser entendida aqui como sendo um pouco míope, pois não consegue perceber o potencial que a parábola do Mestre tem a nos dizer, que é na linguagem do antropólogo Claude Lévi-Strauss, a parábola “também é boa para se pensar” (LÉVI-STRAUSS, 2010).

As razões da Parábola do bom samaritano ser considerada atual, elencadas por Bento XVI são aparentemente marcadas pela evidência de que as mazelas contemporâneas saltam aos olhos. Mas há algo mais aqui. Bento XVI pergunta: “Não encontramos também por acaso à nossa volta pessoas saqueadas e destroçadas?” (RATZINGER-BENTO XVI, Idem. Negrito, S.H). O questionamento nos leva a entender que para além dos problemas de ordem sociais, o tema deve ser tratado na dimensão do relacional. Segundo ele nos encontramos com pessoas.

Aí está o grande percepto de Jesus. O doutor da lei está preocupado com seu dilema e condição. E o Senhor Jesus o fez olhar para o outro lado. Para olhar para as pessoas que se encontram. Primeiro ao fazê-lo ver a lei em Lucas 10,26: “O que é que as Escrituras Sagradas dizem a respeito disso? E como é que você entende o que elas dizem?” (NTLH, 2008, p.1029). Ao que ele respondeu: “Ame o Senhor, seu Deus (…) E ame o seu próximo” (Idem). Jesus depois, apresentou-lhe um caso digno de nota através de uma parábola:

Jesus respondeu assim:

—Um homem estava descendo de Jerusalém para Jericó. No caminho alguns ladrões o assaltaram, tiraram a sua roupa, bateram nele e o deixaram quase morto. 31 Acontece que um sacerdote estava descendo por aquele mesmo caminho. Quando viu o homem, tratou de passar pelo outro lado da estrada. 32 Também um levita passou por ali. Olhou e também foi embora pelo outro lado da estrada. 33 Mas um samaritano que estava viajando por aquele caminho chegou até ali. Quando viu o homem, ficou com muita pena dele. 34 Então chegou perto dele, limpou os seus ferimentos com azeite e vinho e em seguida os enfaixou. Depois disso, o samaritano colocou-o no seu próprio animal e o levou para uma pensão, onde cuidou dele. 35 No dia seguinte, entregou duas moedas de prata ao dono da pensão, dizendo: —Tome conta dele. Quando eu passar por aqui na volta, pagarei o que você gastar a mais com ele (Idem).

Em último lugar Jesus faz a seguinte pergunta:

— Na sua opinião, qual desses três foi o próximo do homem assaltado? (idem).

Jesus aponta para as relações do cotidiano, para fatos que aconteciam costumeiramente. Kenneth Bailey diz que a estrada que levava a Jericó era uma “fortaleza de bandoleiros” (STRABO, apud BAILEY, 1995, p.85). A história era muito plausível. Um viajante foi assaltado, despojado e deixado quase morto. O que realmente surpreende são as outras personagens mencionadas por Jesus: um sacerdote, um levita e um samaritano. Estas são personagens que precisam ser bem entendidas.

A história é cheia de elementos que fazem parte do imaginário, mas também do fictício (ISER, 1999, p.67). Kenneth Bailey diz que os elementos da história são intencionais. A figura mais interessante da história é o viajante. Principalmente, porque este não é descrito. A pesar de que a audiência presumisse a identidade do homem, o que dele é dito apenas: “espancado, despojado de tudo, e deixado ‘moribundo’” (BAILEY, 1995, p.85). Desta forma, o viajante poderia ser qualquer um. Aí está o problema da Parábola: como pensar que “posso ser o próximo de qualquer um”?

Nesta oportunidade gostaríamos de pensar sobre as dificuldades que levaram o sacerdote e levita a não se envolver com o viajante, e o porquê o samaritano não as teve.

O viajante não pode ser identificado de forma alguma. Segundo Bailey, o contexto do Oriente Médio é formado de “várias comunidades étnico-religiosas” (BAILEY, 1995, p.85). E em nenhumas das circunstâncias aventadas por Kenneth Bailey, o homem ferido podia ser identificado, pois ele não podia falar, e possivelmente estava nu.

Será que, como Bailey diz, é possível intuir mais um elemento desta narrativa? Será que não é possível verificar de que etnia, o moribundo fazia parte, ou de que religião era adepto? Seria possível aduzir a que aos olhos de um judeu, o viajante seria percebido como “um moreno, mediterrâneo, ou de outra raça entre as muitas que viviam Oriente Médio”?[1]

Israel de modo geral, praticou um tipo de atitude que pode ser entendida como sendo uma reação à presença de grupos étnico-religiosos no Oriente Próximo. Alguns dos judeus e de seus líderes sempre se ressentiram de terem em seu entorno outros povos em seu território. Como já dissemos em outra postagem, estas atitudes têm a ver a “etnocracia de Israel”, “uma visão em que Estado pode se estabelecer em cima da valoração de só uma etnia” para o fortalecimento de sua “etno-noção em contexto multiétnico”. [2]

Para alguns judeus, portanto, travar relações com pessoas de outras etnias era impensável. Lembremo-nos do que a mulher samaritana disse a Jesus: “O senhor é judeu, e eu sou samaritana. Então como é que o senhor me ede água? (Ela disse isso porque os judeus não se dão com os samaritanos)” (João 4,9 NTLH, 2008, p.1061). John Lightfoot cita um midrash [3] muito indicado para este momento:

“Dos gentios, com quem não temos guerra (…) não devemos planejar a morte, mas se correrem qualquer perigo de morte, não somos obrigados a livrá-los…” (LIGHTFOOT, apud, BAILEY, 1995, p.83).

Pode ser que seja esta a razão para que o sacerdote que “passasse pelo outro lado da estrada” e o levita que “fosse embora pelo outro lado da estrada”. Havia uma regra restritora para o contado com pessoas de outras etnias. Bailey a firma que no caso do sacerdote havia um “sistema ético-teológico”, um código do tipo “faça” e “não faça” (BAILEY, 1995, p.89).  Assim, o estamento religioso de Israel tinha uma orientação expressa para não se aproximarem de outros povos.

Neste momento é necessário que façamos uma consideração importante. Estamos falando de práticas sociais que redundam em racismo. Agora, é forçoso que analisemos que tipo de racismo é perpetrado no contexto da Parábola do bom samaritano. Quando o racismo é tido como sendo individual “é concebido como uma espécie de ‘patologia’ ou anormalidade”. É entendido como “um fenômeno ético ou psicológico de caráter individual ou coletivo, atribuídos a grupos isolados” (ALMEIDA, 2021, p.36).

Esta concepção de racismo é tratada como um desvio da pessoa, quando seu procedimento destoa de todos os demais. A ideia é que a pessoa por uma razão qualquer adota uma atitude que se afastar de um comportamento esperado. Assim dentro desta visão não existe racismo “somente o preconceito de fundo psicológico” (ALMEIDA, 2021, p.36).

Dentro da narrativa do bom samaritano, o sacerdote seria um preconceituoso, alguém alheio aos mandamentos, que se desvia de um padrão, pois não “amava ao seu próximo como a si mesmo”. Ele não cumpriria a lei. Teria uma ação de descriminação. Se a lógica de Bailey está correta, o sacerdote “foi embora pelo outro lado da estrada” porque não queria ter contato com pessoas de outras tradições étnico-religiosas. Mas o problema amplia quando vem também o levita.

Com certeza o levita poderia ter parado e ter ficado “com muita pena dele. Então chegado perto dele, limpado os seus ferimentos…”, pois as exigências sobre o levitas eram mais brandas. Mas isto não aconteceu. Ao contrário o levita “passou por ali. Olhou e também foi embora pelo outro lado da estrada”. Já não temos uma atitude individual. Duas pessoas na mesma estrada, diante do mesmo cenário agiram da mesma maneira.  Segundo Sílvio Almeida não podemos mais falar de desvio. De acordo com ele, “o racismo não se resume a comportamentos individuais, mas é tratado como o resultado do funcionamento das instituições” (ALMEIDA, 2021, p.37).

O levita certamente era menos privado de liberdades que o sacerdote, mas continuou seguindo o mesmo livro de regras.  Almeida informa que para alguns teóricos o racismo institucional “também faz parte das instituições” (ALMEIDA, 2021, p,39). Diz isto porque: “as instituições são hegemonizadas por determinados grupos raciais que utilizam mecanismos institucionais para impor seus interesses políticos e econômicos”  (ALMEIDA, 2021, p,40).

O sacerdote e levita, fazendo parte do mesmo estamento são regidos pelas mesmas regras, e têm acesso aos mesmos recursos. As instituições oferecem direta ou “indiretamente, desvantagens e privilégios” àqueles que estão sobre a sua égide. Desta forma o racismo poderá ser visto como uma forma de dominação. Do mesmo modo, o comportamento do sacerdote e do levita seria o racismo do tipo institucional, manifestando  atos de toda uma comunidade contra outra (ALMEIDA, 2012, p.43).

Agora, a ainda é mister que falemos de outro tipo de racismo que é o estrutural. O racismo que é materializado pelas instituições está dentro do contexto da “estrutura social, por isto mesmo também socializado” (ALMEIDA, 2021, p.47). Jesus nesta história a narra de modo a fazer parecer que a atitude do sacerdote e do levita fosse natural. Na narrativa não aparece nenhum drama pessoal da parte dos caminhantes para Jericó. Eles vêm…/ passam / vão embora …/ pelo outro lado da estrada…”.  O comportamento é naturalizado porque a própria sociedade era racista (Idem). Ninguém se opôs ao fato de  dois “homens de Deus” tinham realizado algo tão indigno.

É importante aqui dizer que não endossamos a ideia de que o racismo é estrutural em termos durkheimiano, ou do determinismo parsoniano. Pensamos que racismo não é estrutural do ponto de vista duro. Mas nos termos de Anthony Giddens que acredita que “a estrutura não é só coercitiva, mas também é permissiva…” (DA SILVA, 2018, p.274). Ou seja, a estrutura é viabilizadora e além de restritora. Como Giddens ensina: “os tipos de estruturas fixas e organizadoras propostos pelos teóricos estruturais são mais maleáveis, impermanentes e abertos a mudanças…” (GIDDENS; SUTTON, 2016, p.14). Visto deste modo, o racismo, mesmo o estrutural é dual, mantendo uma certa reflexividade. É por isto que Jesus investe no contato com o doutor da lei, pois acreditava que apesar de suas amarras, poderia mudar.

O rabino poderia aprender a superar o seu impasse. Ele poderia como todos nós crescer em seu imobilismo e entender que para amar de verdade é preciso ver no “zé ninguém” o seu objeto de seu amor. O doutor da lei para herdar a vida eterna, tem que entender que amar é se tornar próximo de “qualquer um”.

O bom samaritano é um “tipo ideal” de alguém que está disposto a ir além de suas inclinações e ver no outro alguém digno de um bom tratamento. É alguém que chega perto, e faz o que tem que fazer não importando de quem se trate. O bom samaritano pode ser uma pedra de toque para pensarmos as nossas relações.

 

Referência:

ALMEIDA, Sílvio. Racismo estrutural. Feminismos plurais. RIBEIRO, Djamila (Coor.). São Paulo: Sueli Carneiro; Editora, Jandaíra, 2021.

BAILEY, Kenneth. As parábolas de Lucas. São Paulo: Nova Vida, 1995.

BIBLIA DE ESTUDO (NTLH). Barueri, Sociedade Bíblica do Brasil, 2008.

Da SILVA, Fábio R. R. Anthony Giddens (1938 – ). TELLES, Sarah S; OLIVEIRA.  Solange L. de (orgs.). Os sociólogos; Clássicos das Ciências Sociais. Petrópolis: vozes, 2018, p.270-285.

GIDDENS, Anthony; SUTTON, Philip W. Conceitos essências da Sociologia. São Paulo: Editora Unesp, 2016.

ISER, Wofgang. O fictício e o imaginário. Em: ROCHA, João Cezar de C. Teoria da ficção. Indagações à obra de Wolfgang Iser. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999, p.63-77.

LÉVI-STRAUSS. Claude. O cru e o cozido. Mitológicas v.1. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

MENDONÇA. Ivanaldo. O bom samaritano ferido. Em: https://leonardoconcon .com.br/cidade/geral/opiniao/o-bom-samaritano-ferido/. Aces- sado em 25/06/2021.

RATZINGER-BENTO XVI, Joseph, Jesus de Nazaré I. Do Batismo no Jordão à Transfiguração (São Paulo: Planeta, 2000), p. 171.

SEWELL Jr, William H. Lógica da História. Teoria social e transformação social. Coleção Sociologia. Petrópolis: Vozes, 2017.

[1] Lembrando sempre do que já dissemos a respeito deste tema em outra postagem: o racismo é um fenômeno complexo que tem que atender segundo esta compreensão a estes requisitos: que várias seriam as raças (dentro de matrizes grupais, que os pesquisadores precisam ainda chegar a um acordo em meio à espécie humana). Mas além disto, o racista precisa hierarquizar tais raças dentre padrões, “moral, intelectual e técnico”.  Em: https://www.batistasporprincipios.com.br/2021/04/10/a-nocao-de-racismo-na-biblia/. Acessado 25/06/2021.

[2] HANSLEY, Samuel. A leitura bíblica em nossas igrejas e o racismo. Em: https://www.batistaspor principios.com.br/2021/05/12/a-leitura-biblica /. Acessado em 25/06/2021.

[3] Um tipo de pregação a partir da Tanak feita por rabinos.

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