IGREJAS BATISTAS: ENTRE A LIBERDADE E A COOPERAÇÃO

IGREJAS BATISTAS: ENTRE A LIBERDADE E A COOPERAÇÃO

Por Edvar Gimenes de Oliveira

Há dois princípios – elementos que sustentam estruturas – que convivem “entre tapas e beijos” na caminhada das igrejas batistas. O primeiro, é o da liberdade; o segundo, da cooperação. Eles convivem “entre tapas e beijos” como na fábula dos porcos-espinhos popularizada por Arthur Schopenhauer: se, numa manhã fria de inverno, aproximam-se demais uns dos outros para se aquecerem, se ferem; se se afastam, podem morrer de frio.

A liberdade resulta do reconhecimento de que, como igrejas locais, somos unidades autônomas, formadas por indivíduos autônomos. “Se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rom. 14:8). Isso quer dizer que, como indivíduos, não somos propriedade de nenhum outro CPF ou CNPJ. Nenhum significa N E N H U M. “Tal liberdade não é privilégio para ser concedido, rejeitado ou meramente tolerado – nem pelo Estado, nem por qualquer outro grupo religioso – é um direito outorgado por Deus”, reconhecem os batistas da CBB em sua Declaração de Princípios.

Essa liberdade significa que uma igreja – isto também está lá na Declaração de Princípios da CBB – “não pode sujeitar-se à autoridade de qualquer outra entidade religiosa”. “Seu governo democrático, no sentido próprio, reflete a igualdade e responsabilidade de todos os crentes, sob a autoridade de Cristo”.

A cooperação, por sua vez, resulta do reconhecimento de que, como escreveu Yuval Noah Harari, “os sapiens são animais relativamente fracos, cuja vantagem está em sua capacidade de cooperar em grande escala”. Um indivíduo, uma igreja local, pode muito, mas não pode tudo. Tanto a experiência como a capacidade de abstração indicam, veementemente, a limitação de nossa força frente à imensidão do desafio chamado viver e da quantidade e complexidade das variáveis que envolvem nossa caminhada neste, fisicamente, irrelevante planeta dos milhões de universos.

É o reconhecimento de nossa fragilidade frente aos obstáculos que precisam ser diariamente superados, a fim de que o prazer de viver seja, no mínimo, igual às dores que as realidades nos impõem, repito, é esse reconhecimento que nos convence de que, sem cooperação coletiva a liberdade individual pode se tornar um passaporte para a morte.

Se é assim, reconhecida a liberdade, importa alimentar o contrapeso da cooperação e administrar a tensão criativa que ambas produzem em nossa caminhada. Essa tensão entre liberdade e cooperação é sinal de vida. A ausência dela é sinal de morte. O indivíduo que se isola está sujeito a morte. A coletividade que se impõe, desrespeitando o indivíduo, se torna agente de morte. Daí Paulo defender a liberdade mútua, mas, no mesmo texto, reafirmar a importância da cooperação ao declarar: “façamos o propósito de não colocar pedra de tropeço ou obstáculo no caminho do irmão” (Rom. 8:14). Daí, também, escrever aos Gálatas: “vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; pelo contrário, sirvam uns aos outros” (Gal. 5:13). Em outras palavras, somos livres, mas não somos sós, não vivemos isoladamente. O que faço ou deixo de fazer afeta o outro, o que o outro faz ou deixa de fazer me afeta, seja para o bem, seja para o mal.

Se equacionar esse conflito entre liberdade e cooperação, por exemplo, na vida conjugal, familiar e eclesiástica, é um desafio, esse se torna ainda maior quando igrejas batistas locais, espalhadas por 8.516.000 Km2 de um território multicultural e economicamente desigual como o brasileiro, pretendem agir em conjunto. Pior ainda: quando nós, dirigentes institucionais, desconsiderando esse fato territorial, fatores multiculturais e econômicos, acreditamos poder impor, “de cima para baixo”, um modelo de cooperação que desconsidera, desrespeita até, não só as realidades próximas dessas igrejas, mas também, até acreditamos e desejamos poder implementar um modelo que atende interesses que não os das igrejas em suas próprias realidades.

Há ainda, um outro elemento a ser considerado. O crescente desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação e de transportes aproximam velozmente diferentes realidades de cada dimensão da vida humana – economia, saúde, educação, política, religião etc. Agentes dessas dimensões, movidos por interesses difusos, muita vez usam as redes existentes de igrejas para outros fins, como por exemplo, comercialização de produtos, especialmente religiosos, ou mesmo como meios de fortalecimento de ideologias políticas até opostas as do evangelho que as fez surgir. Isso gera conflitos e enfraquece as finas teias que sustentam o que se conseguiu construir de cooperação entre elas.

Diante disso, com o objetivo de provocar diálogos, abrir trilhas, não propor receita, muito menos trilho, considero essencial pensarmos em alguns elementos cujo tipo de presença ou ausência fortalecem ou enfraquecem a cooperação entre igrejas. Os que destaco aqui não são elementos operacionais, que também merecem consideração, mas são básicos ao fortalecimento cooperativo entre igrejas.

  1. O preparo de lideranças e a cooperação entre igrejas

Em 1984 – portanto há 37 anos – publiquei texto n’O Jornal Batista da CBB sobre os rumos de nossas instituições de preparo teológico-ministerial. Havia sinalizações de que essas instituições poderiam deixar de ser centro de construção de conhecimento para o exercício ministerial, para se tornarem escolas técnicas de formação de mão de obra para atender expectativas de crescimento numérico e de poder de lideranças denominacionais. Sabia que existia, por detrás disso, disputas teológicas, mas não enxergava que essa “formação” que se pretendia implementar, também estaria a serviço de interesses político-ideológicos que transcenderiam à razão de ser primária das igrejas: identificação com a pessoa de Jesus, o Cristo de Nazaré, para ser sal da terra e luz do mundo. Isso, vejo hoje, aconteceu em muitas casas “de profetas”, continua gerando pressão sobre as raríssimas que resistem a ela e pode ser facilmente comprovado.

Para que esse desvio de finalidade pudesse se concretizar, o passo mais importante seria definir a uniformidade de pensamento, eliminando a possibilidade da reflexão teológica que se dá, também, através do acesso aos múltiplos modos de compreensão da fé. Ao utilizar a educação dentro de uma lógica de mercado – ié, definição de nicho comercial e formação técnica de mão de obra para atender suas necessidades – a educação ministerial subtraiu dos futuros líderes competências básicas para se construir cooperação: interesse por construir pontes em vez de paredes e capacidade de levantar informações da realidade e, a partir delas, construir conhecimentos sobre o contexto das igrejas, separando o essencial do acidental.

Não são muitos os dirigentes batistas que se atrevem a fazer autocrítica denominacional com propósito de aperfeiçoamento ou avaliar a realidade, refletir e apontar caminhos alternativos à cooperação, à luz da vida e ensinos de Jesus. A uniformidade de pensamento em todas as esferas da vida humana passou a ser o paradigma da cooperação entre igrejas, defendido por parte significativa de lideranças batistas. Isso, a meu ver, é um grande equívoco, pois a unidade sustentável só se dá na diversidade. Na uniformidade não há unidade, há medo e subserviência.

  1. O exercício do poder e a cooperação entre igrejas

Todos nós temos e precisamos de algum grau de poder. Sem poder não superaríamos desafios que colocam em risco nossa sobrevivência individual e coletiva. Manifestamos poder sobre as forças internas que atuam em nossos corpos e nos impulsionam visando garantir um equilíbrio entre elas e a saúde que nos mantém vivos. Também dispomos de algum grau de poder sobre forças externas, sejam elas da natureza em geral, sejam dos próprios seres humanos em particular.

As igrejas também são comunidades de poder. Biblicamente, esse poder tem finalidade: possibilitar um testemunho vivo da presença transformadora de Jesus, nos termos de Atos 1:8. As igrejas são (ou deveriam ser), portanto, um conjunto de pessoas que reconhecem suas forças e fraquezas, as submetem à ação do Espírito Santo de Deus conforme se manifestou em Jesus e se unem para exercer um papel santificador no mundo. (Entenda-se santificação como um modelo de vida saudável, não moralista).

O exercício do poder sempre será uma experiência de tensão que pode ser criativa ou destrutiva. Quando o espírito de Jesus deixa de ser o centro motivador da vida da igreja, o exercício do poder deixa de ser em favor e a serviço de todos e passa a ser usado em favor de interesses particulares ou de facções. Isso pode se dar entre os membros de uma igreja local e nas relações que tais igrejas estabelecem entre si, visando cooperação, conhecidas entre nós batistas como “convenção”.

Seja na igreja local, seja numa “convenção”, temos um referencial espiritual que é a pessoa de Jesus, nos termos revelados nas Escrituras Sagradas judaico-cristãs – a Bíblia – e temos um referencial legal, denominado Estatuto.  Estatuto não é apenas uma peça jurídica para garantir a existência legal de uma instituição. É um documento que define as relações de poder numa instituição. Ao elaborá-lo, a distribuição do poder entre os participantes deve considerar o equilíbrio de força, pesos e contrapesos, entre os que exercerão tais atribuições. E os que exercem o poder conferido pelas atribuições devem exercitá-los no espírito de serviço, logo, sem perder Jesus como referencial de conduta.  Quando isso é desconsiderado, o exercício do poder torna-se um fim em si mesmo, as disputas aumentam e a cooperação se enfraquece.

Portanto, se buscamos cooperação entre igrejas, é essencial desenvolvermos uma relação saudável tanto com o poder que trazemos em nós mesmos – nossos impulsos instintivos – , quanto com os poderes a nós conferidos dentro da instituição – atribuições estatutárias -, a fim de que ele resulte em benefício para todos.

  1. A importância do diálogo e a cooperação entre igrejas

Diálogo é a interação que se estabelece entre pelos menos duas pessoas através do qual se expressa potencialidades e necessidades. É um mecanismo que possibilita troca de sentimentos e pensamentos em busca de bem-estar para os que dele participam. Quanto mais nossos órgãos de sentido são envolvidos nele, melhor a comunicação se estabelece, maior é o benefício mútuo entre os participantes e mais ampla e profunda é a cooperação que se constrói.

Igrejas são instituições, cuja vida depende de pessoas capazes de dialogar. Instituições não são boas ou ruins. Boas ou ruins são as pessoas que as fazem. As instituições não são problema. Problema são as pessoas que as compõem ou as dirigem. Se essas pessoas desenvolvem a capacidade de ouvir e serem ouvidas, enfim, de dialogar, essas instituições – no caso igrejas e convenções – se aperfeiçoam em direção a uma convivência benéfica, saudável. As tensões continuarão presentes, pois seus membros são seres vivos, emotivos, pensantes, com histórias, sonhos e projetos, mas a disposição para o diálogo possibilita adequações, mudanças favoráveis à cooperação, ao crescimento mútuo.

Diálogos são essenciais à cooperação e fazem sentido para quem reconhece que existem diferenças a serem equacionadas. Para quem não reconhece a existência dessas diferenças ou se apresenta como parâmetro ao qual os demais devem se adequar, o diálogo se torna desnecessário. Nesse caso, a filosofia reinante é: uma manda, o outro obedece. Sabemos, entretanto, que quem não reconhece que somos diferentes é ignorante ou narcisista, de índole autoritária. E esse tipo também se faz presente nas igrejas, dificultando a cooperação, tanto interna quanto entre igrejas, nas convenções.

No caso da cooperação entre igrejas batistas, a Convenção e suas organizações deveriam ser espaços permanentes de diálogo, de aproximação, de conciliação. Quando, entretanto, nós dirigentes das convenções entendemos que nossas posições particulares e de nossos aliados devem prevalecer, sem ouvir as percepções das lideranças das múltiplas e diferentes igrejas que as compõem, o diálogo é demonizado e dispensado. Assim, elimina-se a participação de divergentes nos espaços deliberativos e de elaboração de projetos, de conferências, de aula nas instituições educacionais e de produções literárias, como sites, revistas e jornais, por exemplo.

Dessa forma, bem no espírito do “America love it or leave it” da direita americana racista dos anos 1960 ou do “Brasil, ame-o ou deixe-o” dos anos 1970, os impostores se empenham para eliminar os que não são espelhos e criam um mundo de fantasia, uma realidade paralela, no qual todas as igrejas que participam do sistema seriam formadas por pessoas que refletem sua imagem e semelhança e não a de Deus, expressa em Jesus, nos termos das nossas Escrituras Sagradas.

Todos necessitamos e desejamos cooperação. Almejamos que as igrejas sejam a cada dia mais cooperativas. A velocidade, entretanto, dessa construção cooperativa e o futuro dela, passam por uma reavaliação da filosofia de educação teológico-ministerial praticada em nossos seminários para preparo de lideranças, por um trabalho sério nas dimensões psicológica e jurídica que envolvem o exercício do poder e no estímulo ao estabelecimento de canais de diálogo que devem substituir os monólogos monocráticos monótonos vigentes em grande parte das organizações eclesiásticas e convencionais da denominação.

 

 

One thought on “IGREJAS BATISTAS: ENTRE A LIBERDADE E A COOPERAÇÃO

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *