A LEITURA BÍBLICA EM NOSSAS IGREJAS E O RACISMO

A LEITURA BÍBLICA EM NOSSAS IGREJAS E O RACISMO

A leitura bíblica em nossas igrejas e o racismo

 

 

Por Samuel Hansley. As igrejas batistas de modo geral, não produziram um manual de como deveria ser a interpretação das Escrituras. Bem fiel a seus princípios, estas evitaram normatizar os procedimentos para o estudo da Bíblia para cada crente. Uma vez que o “livre exame das Escrituras” é um dos Princípios Batistas, não faria nenhum sentido levar a que cada crente busque a uniformização do entendimento da Palavra de Deus. Isto pode ser uma vantagem, mas também uma fonte de dificuldades que temos.

Ao contrário da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) que através do Concílio Vaticano II, em sua Constituição Dogmática “Dei Verbum” sobre a Revelação de Deus no Capítulo III – Inspiração Divina da Sagrada Escritura e sua Intepretação –  diz que “ deve o interprete (…) para entender o que Deus nos quis transmitir, investigar atentamente o que os hagiógrafos [1] de fato quiseram dar a entender…” (Vaticano II, 2000, p. 130), as igrejas batistas não constituíram de forma cabal procedimentos uniformes sobre a sua interpretação das Sagradas Escrituras. A Igreja Católica chega afirma categoricamente que:

“É preciso que interprete pesquise o sentido que, em determinadas circunstâncias, o hagiógrafo conforme a situação de seu tempo e sua cultura, quis exprimir e exprimiu por meio de gêneros literários então em uso” (Idem).

O Princípio do “Livre Exame das Escrituras” impede que se produza um texto dogmático sobre as processualistas relativas à leitura da Bíblia, entendo que cada crente tem a sua oportunidade e experiência de iluminação por parte do seu relacionamento com Deus. Todavia, isto nunca obstou as igrejas de produzirem recursos que auxiliassem os crentes para a tarefa de ler e aprofundar-se nas escrituras. Então, vários foram os métodos e as abordagens aceitos pelos irmãos para o entendimento da Palavra de Deus.

Vários foram os Manuais de interpretação bíblica, publicados pelas editoras e aceitos pelas igrejas cristãs como um todo. Muitas foram as casas de Ensino Teológico que se configuram como escolas de pregação e explanação das Escrituras e que influenciaram os ministérios da Palavra e os estudos bíblicos das igrejas, permitindo desta forma uma pulverização do entendimento acerca de passagens diversas da Palavra de Deus.

Conquanto que esta situação gravite entre o que é considerado como sendo o real e o desejável, também sempre foi de grande dificuldade chegar a melhor interpretação da Bíblia dentro da comunidade cristã. Sem uma norma, as igrejas e os irmãos permanecem livres para adotar o seu entendimento das Escrituras. É assim que muitas vezes nos vemos em meios a equívocos que se perpetuam no nosso meio a pesar de todos os recursos hermenêuticos com que se pode contar.

Entre os muitos problemas que os nossos irmãos têm que lidar estão as compreensões das diversas traduções bíblicas que permitem a se chegue a narrativas que expõem os comportamentos vividos pelos homens e mulheres na Bíblia. Sabendo que as Escrituras têm o poder de produzirem comportamentos modelados (no que isto importe de bom e de ruim), é de extrema importância que professores de “ensino de virtudes” tenham uma compreensão correta do ensinamento bíblico sob pena de esmerarem-se por levar aos seus alunos a vícios de leitura, e a uma interpretação particular e até mesmo uma conduta inadequada.

Tomemos uma de nossas compreensões sobre as atitudes dos personagens bíblicos. Nem sempre nos parece que as igrejas têm uma compreensão correta dos comportamentos dos personagens bíblicos. Mas sabemos que em alguns casos isto acontece em razão de certa dubiedade das nossas traduções bíblicas. Um caso que pode ser pontuado como um indicativo disto é a leitura feita da passagem de Gênesis 21, 8-10.

Este texto deveria ser lido em sua integra como sendo de Gênesis 21, 8-21, mas para efeito das considerações acima, mencionaremos somente a parte referente ao caso que enfocaremos. A Versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida (ARA) diz:

8 Isaque cresceu e foi desmamado. Nesse dia em que o menino foi desmamado, deu Abraão um grande banquete.  9 Vendo Sara que o filho de Agar, a egípcia, o qual ela dera à luz a Abraão, caçoava de Isaque, 10 disse a Abraão: Rejeita essa escrava e seu filho; porque o filho dessa escrava não será herdeiro com Isaque, meu filho. (Negrito E.S.).

Segundo esta tradução, Isaque foi desmamado e por causa disto Abraão deu uma grande festa.  Mas Sara a esposa principal, viu que o filho da escrava Agar, Ismael estava caçoando de Isaque. Em razão disto, disse que Agar e seu filho deveriam ser expulsos, e que Ismael não deveria herdar os bens de Abraão junto com Isaque.

Aparentemente esta seria a história que foi contada, mas o texto de na língua hebraica que é a original deste texto diz outra coisa. Segundo o texto na língua original o Gênesis 21,9 em sua parte c, não contempla a expressão: “caçoava de Isaque”. Mas v. 9 termina no texto hebraico com a  seguinte   locução: “´ášer-yäldâ  le´ abrähäm mesahëq” [que nascera a Abraão, brincar].  Desta maneira não temos uma expressão bíblica que diga textualmente que “Ismael caçoava Isaque” conforme é encontrado na tradução ARA.

Alguns tradutores afirmam que Almeida teria se confundido com o fato que o nome de Isaque a parecer no final do v.8. Deste modo o nome Isaque que aparece no verso 8, seria repetido na tradução de Almeida no verso 9. Uma ilusão de ótica seria responsável por uma afirmação de que havia uma animosidade entre Ismael e Isaque.

A partir das afirmações acima sobre a narrativa em tela, não podemos encontramos uma cena em que dois irmãos estão em conflito, como afirmam algumas versões em português, inglês e outras. Sabemos que foi a tradução do Antigo Testamento para o grego (LXX) que trouxe esta informação: “ἰδοῦσα δὲ Σαρρα τὸν υἱὸν Αγαρ τῆς Αἰγυπτίας ὃς ἐγένετο τῷ Αβρααμ παίζοντα μετὰ Ισαακ τοῦ υἱοῦ αὐτῆς” [E viu Sara o filho de Agar a egípcia que nascera a Abraão, divertindo-se com Isaque, o seu filho]. Com o que foi visto agora é bem possível que a tradução do Antigo Testamento para o grego tenha servido de base para diversas traduções, inclusive as versões de Almeida que conhecemos hoje.

O que parece até agora ser o preciosismo de nossa parte, pode então causar os problemas sérios em relação aos comportamentos verificados dentro da narrativa que conhecemos de Gênesis 21, 8-10. Pois nos parece que temos diante de nós uma situação de que uma mãe zelosa diante de ataques e bullyngs de seu meio-irmão pede que o marido mande a “outra” e seu filho embora, mas precisamos pensar melhor.

Carlos Dreher diz que para Sara é “incompatível que o filho da escrava tenha a mesma liberdade e ria espontaneamente, como seu filho Isaque” (DREHER, 1987, p. 70). Se for a assim, temos uma nova ordem de problemas de comportamento para observamos na cena de Gênesis 21, 8-9. Sara agora não vê em Ismael alguém que precise ficar na tenda de Abraão. Mesmo que tenha sido ideia sua de suscitar descendência a ele a partir de uma escrava, agora tem seu próprio filho. Ismael não é mais necessário. Na verdade,  passou a ser um inconveniente.

Ismael é filho de uma escrava egípcia. É o filho de uma africana, que em vez está a serviço da casa, estava brincando, ou rindo, conforme a tradução aceita. Parece que este é o grande problema de Sara. Tanto que o verso 10 sugere um problema diverso do “desaforo do menino folgado”. O texto diz: “Rejeita essa escrava e seu filho; porque o filho dessa escrava não será herdeiro com Isaque, meu filho”. Transparece que o problema é o menino filho de uma mãe africana que está para herdar uma fortuna como o filho da mulher principal de Abraão.

Desde modo, a desavença entre as crianças está só na mente dos tradutores e agora dos leitores poder modernos, e não no texto. Mas aconteceu algo que poderia justificar a rispidez com que Sara trata a questão. Na verdade, hoje este texto tem sido usado para justificar outras coisas, tais como a “etnocracia de Israel” para com os povos do seu entorno (YIFTACHEL apud SAHD, 2011, p.2).

A etnocracia, uma visão em que Estado pode se estabelecer em cima da valoração de só uma etnia, é o tipo de crença que se propõe a fortalecer uma “etno-nação em um contexto multiétnico” (idem). Assim o texto bíblico é usado em sua “história dos efeitos” para lidar com assuntos muito alheios às nossas comunidades de fé, nossas igrejas.

A “doutrina da Guerra Justa” que remonta vários teóricos da cultural ocidental que podem ser evocados nesta questão: Cícero (106-46 a.C.); Agostinho de Hipona, ou Santo Agostinho (354-430), São Tomás de Aquino (1225-1274), Hugo Grotius (1583-1645) e Michael Walzer (1935-) (LIMA, 06/05/2021, p.3).

O jurista holandês, Hugo Grotius é um dos mais importantes pilares da noção de comunidade internacional, formulou uma compreensão de guerra justa. Grotius determinou que três poderiam ser as causas que justificariam a guerra justa: “I. Defesa contra injúria (…); II. Restituição do que é legalmente devido (…); III. Punição do Estado injuriador (Idem). Sendo assim para todos os efeitos o texto de Gênesis poderia ser elencado com uma provas que historicamente judeus e ismaelitas (árabes) nunca se deram e nunca terão paz entre si.

A leitura etnocrática de Gênesis 21,8-10 sem nos darmos conta é uma leitura racista, que paira sobre nossas igrejas, porque não conseguimos entender o que está por trás das atitudes de Sara. Esta usou Hagar para suscitar descendência para Abraão, mais quando os dois não precisavam mais dela e de seu filho os expulsaram de casa.

A graça de Deus esteve com Hagar e seu filho em sua viagem no deserto. A sequência do texto de Gênesis 21,11-21 conta-nos que no momento mais difícil de Hagar e Ismael. Porque o Anjo de Deus disse que: “Deus ouviu a voz do menino…” (Gênesis 21, 17 – ARA).

É importante reconhecermos que muitas vezes podemos fortalecer ideias que podem ser nocivas e inadequadas mesmo lendo a Palavra de Deus. Podemos mesmo estudando a Bíblia podemos prejudicar pessoas usando o nosso mal entendido das Escrituras, apoiando atitudes ruins de personagens bíblicos. Por isto, temos o desejo de sugerir uma maior preocupação com a maneira que temos lido asa Escrituras. Não devemos reforçar ideias que em vez de trazer sabedoria para o nosso povo, trás sim o menosprezo pelos nossos irmãos, e pessoas que nos cercam.

 

[1] Escritores sagrados.

2 thoughts on “A LEITURA BÍBLICA EM NOSSAS IGREJAS E O RACISMO

  1. O conteúdo do texto é muito interessante e nos faz entender a atual guerra entre Israel e Palestina e de como não só o Estado, mas também a igreja sempre esteve ao lado do opressor. Porém , o fato de o texto conter alguns erros – creio que não tenha recebido uma segunda leitura e, assim, não tenha sido bem dilapidado – faz com que suscite dúvidas e perca um pouco a credibilidade. Poderiam reeditá-lo. Grata.

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