CRISTO COMO CHAVE HERMENÊUTICA

CRISTO COMO CHAVE HERMENÊUTICA

Por Jones Mendonça

Desde bem cedo a Igreja precisou lidar com questões relacionadas à interpretação das Escrituras. Pedro, por exemplo, admite que nas cartas de Paulo há alguns “pontos difíceis de entender, que os ignorantes e vacilantes torcem” (2Pe 3,16). Ele também alerta que “nenhuma profecia da Escritura resulta de uma interpretação particular” (1,20), enfatizando assim que o Livro Sagrado não pode ser lido de forma arbitrária, sob o risco de se perder de vista a mensagem de Deus anunciada por homens impelidos pelo Espírito (v. 21). Tal problema impulsionou a liderança da igreja primitiva a desenvolver mecanismos capazes de impedir que unidade da Igreja fosse comprometida por propostas de interpretação conflitantes.

O primeiro problema que precisava ser superado era o da autoridade. A questão foi inicialmente resolvida a partir de três eixos principais[1]: 1) Na medida em que os apóstolos foram morrendo, parte da comunidade que se via como legítima herdeira dos ensinamentos dos apóstolos elegeu o bispo de Roma – visto como sucessor de Pedro – como tendo primazia sobre os demais líderes das igrejas cristãs (aqui está o embrião do papado); 2) Também foi necessário decidir quais livros deveriam ser considerados inspirados dentre um conjunto de obras que eram lidas nas diversas comunidades cristãs que se formaram (assim nasceu o cânon); 3) Pensando na unidade doutrinária foi definido um credo, conhecido hoje como “credo apostólico”, contendo elementos considerados fundamentais da fé cristã que precisavam ser compartilhados por todos os cristãos.

Resolvido o problema da liderança, do cânon e do credo, a Igreja agora solidamente organizada passou a convocar concílios na tentativa de definir questões teológicas que ainda provocavam problemas que ameaçavam a unidade da fé cristã. O concílio mais famoso foi o de Niceia, realizado no início do século IV, presidido pelo imperador Constantino. Vencidos os inúmeros desafios, a igreja avançou, evangelizou povos distantes, fez caridade, construiu igrejas magníficas, desenvolveu uma hierarquia sofisticada e complexa. Esta mesma igreja coroou reis, perseguiu hereges, legitimou guerras, fez comércio da fé, deu sua bênção a conquistadores que ambicionavam os tesouros das terras de além mar. No século XVI, a partir das críticas ferrenhas de um monge agostiniano chamado Martinho Lutero, esta “igreja deformada” recebeu um terrível golpe.

No dia 31 de outubro de 1517 Lutero escreveu 95 teses – pequenas declarações – criticando uma série de abusos cometidos por sacerdotes mal-intencionados. No título das teses vinha a seguinte declaração: “Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, será discutido o seguinte…”. Em 1520 Lutero escreveu “Carta à nobreza alemã”, texto que rejeita o papel do Papa como autoridade última na interpretação correta das Escrituras[2]. A expressão “livre exame” não aparece, mas nasce deste texto. Aqui temos uma importante conquista: o fiel se libertou das âncoras dogmáticas equivocadas da Igreja, que se via como única autorizada a interpretar as Escrituras. Além do “livre exame”, Lutero enfatizou a suficiência das Escrituras e a necessidade de interpretá-la nos idiomas originais (ad fontes).

Lutero também entendia que o cânon não deve ser definido baseando-se nas tradições da Igreja nem por demonstração histórica, mas pelo fato de pregarem a Cristo[3]. Aqui ele apresenta um horizonte importante de interpretação, apontando Cristo como chave hermenêutica, como filtro interpretativo. Vale destacar que Lutero foi um homem cheio de virtudes, mas também de defeitos. São bem conhecidos seus textos incitando a queima de sinagogas[4] e a perseguição de camponeses[5]. Assim, o princípio de Lutero deve ser usado também em relação aos seus escritos. É preciso filtrar sua obra a partir daquilo que Cristo nos ensinou nos evangelhos. Removidas as impurezas, há muito que aprender com o reformador alemão.

Acolher o princípio que coloca Cristo com chave hermenêutica significa, acima de tudo, anunciar uma mensagem que realmente represente “boas novas” e não uma religião que aprisiona pelo apego cego a normas e tradições humanas, tal como era disseminado por parte da liderança farisaica do tempo de Jesus (Mt 15,2-3). Significa rejeitar o discurso intolerante e violento legitimado pela fé, caminho que foi seguido pelos detratores de Jesus (Jo 11,48.53) e que tem se tornado assustadoramente popular em nossos tempos. Significa escolher a compaixão, a disposição ao diálogo, a justiça e o amor.

[1] Justo Gonzalez entende que o cânon, o credo e a sucessão apostólica nasceram a partir da necessidade que a Igreja tinha de enfrentar movimentos considerados heréticos, como os ensinamentos de Marcião. GONZALEZ, Justo. Historia del cristianismo, Tomo I: desde la era de los mártires hasta la era de los sueños frustrados. Miami: Editorial Unilit, 2008, p. 92-98.

[2] Um trecho da carta diz o seguinte: “Devemos […] julgar com coragem tudo o que eles [os papas] fazem ou deixam de fazer, conforme nossa compreensão crente da Escritura, e obrigá-los a seguir a compreensão melhor, e não sua própria”. LUTERO, Martinho. Obras selecionadas, volume 2. São Leopoldo, RS: Editora Sinodal, 1998, p. 287.

[3] FEINER, Johannes; LÖHRER, Magnus. Mysterium Salutis: Manual de teología como historia de la salvación, volumen 1.  Madrid: Ediciones Cristandad, 1992, p. 433.

[4] No texto “Os judeus e suas mentiras”, escrito pelo reformador em 1453, são feitas declarações injuriosas sobre os judeus.

[5] Como resposta às ideias libertárias elaboradas em 12 artigos por camponeses da Alemanha – enfurecidos com a extrema desigualdade social, em 1524 – Lutero disse o seguinte: “Abraão e os outros patriarcas não tinham escravos? […] Pois um reino terreno não pode sobreviver se nele não houver uma desigualdade de pessoas, de modo que algumas sejam livres e outras presas, algumas soberanas outras súditas”. DURANT, Will. A Reforma. São Paulo: Editora Redord, 2002, p. 323.

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